2. ENTREVISTA 22.5.13

CAC DIEGUES - "ESSE CONGRESSO NO NOS REPRESENTA"

O cineasta afirma que existe uma grave crise da democracia representativa no Pas e diz por que o cinema hoje  apenas uma vitrine para lanar filmes 
por Eliane Lobato 

NA DITADURA - "Um ideal no pode ser assalariado, diz, ao comentar as indenizaes pagas a perseguidos polticos

Aos 72 anos de idade e 50 dedicados ao cinema, Carlos Diegues, o Cac Diegues,  um dos cineastas brasileiros mais conhecidos no mundo. Autor dos memorveis Xica da Silva (1976) e Bye Bye Brasil (1981), acaba de chegar de Nova York (EUA), onde ganhou uma retrospectiva no Lincoln Center. No ms passado, recebeu um trofu do cineasta Costa-Gavras durante o Festival Brasileiro de Cinema em Paris, na Frana, que o homenageou. A vida e a obra de Diegues se entrelaam desde os tempos em que era um jovem cinfilo e militante de movimentos estudantis. Por ter participado da resistncia intelectual  ditadura, foi exilado, junto com a mulher, a cantora Nara Leo (1942-1989), tambm perseguida poltica e me de seus dois primeiros filhos. Nascido em Macei (AL), Diegues mora no Rio de Janeiro e  casado com a produtora de cinema Renata Almeida Magalhes desde 1981, com quem tem dois filhos e divide trabalhos como a produo do filme Giovanni Improtta, em cartaz, e do documentrio Favela Gay, a ser lanado.

"O (Jos Mariano) Beltrame  um heri nacional.  Adoraria que ele fosse secretrio de  Segurana Pblica do Rio para sempre"

O Lobo faz o marketing da porrada. Aparece  criando polmica. Mas isso no vai longe, porque  no tem argumentos, tem s exclamaes"

Isto - Nesse meio sculo de cinema e reflexo sobre o Brasil, aonde acha que chegamos?

Cac Diegues - Acho que existe uma grave crise da democracia representativa, no nos sentimos mais representados pelas pessoas que esto no Congresso. Mas no tenho a menor dvida de que tambm estamos vivendo um perodo de ouro da histria republicana, desde o presidente Itamar Franco (1992-1994) para c. Tivemos os presidentes Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), Lula (2003-2011) e, agora, a Dilma (Rousseff), e, por mais que a gente goste mais de um do que de outro, eles so muito parecidos e bons. Temos hoje uma democracia consolidada, uma economia em ao, uma redistribuio de renda que , pelo menos do ponto de vista da conscincia nacional, uma necessidade que ningum nega mais. Ento, o Brasil melhorou muito. 

Isto - Algum fenmeno pode ser ressaltado nas ltimas dcadas? 

Cac Diegues - As UPPs (Unidades de Polcia Pacificadora implantadas em favelas cariocas) so o fenmeno mais importante do Rio de Janeiro dos ltimos anos, com repercusso no Brasil todo, porque est acabando com a violncia gratuita nas favelas e aproximando quem vive nas comunidades de quem mora no asfalto. Adoro o (Jos Mariano) Beltrame (secretrio estadual de Segurana Pblica), converso muito com ele, sei que  uma pessoa culta, de uma enorme delicadeza de pensamento e cuidado com o que faz e com o outro. Eu o considero um heri nacional apenas pelo projeto das UPPs, que exige coragem. E agora ele batalha pelas UPPs sociais, que seriam as creches, escolas, hospitais, etc. Adoraria que o Beltrame fosse secretrio de Segurana para sempre. Mas ele  quem sabe. Tenho at medo de que esse projeto acabe se mudarem os governantes.

Isto - H uma tradio de os polticos interromperem projetos quando o poder muda de mos.

Cac Diegues - Espero que acabe essa besteira que tem no Brasil de um governo descontinuar o que era bom no governo anterior apenas porque  de outro partido. Esto agora querendo desmoralizar a lei da responsabilidade fiscal, criada pelo Fernando Henrique (PSDB-SP), que  muito boa. Puxa, no  porque o Bolsa Famlia foi feito pelo Lula que amanh o PSDB vai acabar com ele. Quem tem que ser beneficiado no  o partido,  o Pas.

Isto - O sr. viveu exilado na poca da ditadura. O que acha de indenizaes pagas a quem defendeu ideais e foi perseguido? 

Cac Diegues - Pergunta difcil! Prefiro no comentar.

Isto - De certa forma, j comentou. 

Cac Diegues -  que um ideal no pode ser assalariado, no ? Eu tive que me exilar, fiquei sem trabalhar, era difcil. A Nara era muito perseguida tambm. Mas no acho que isso merea salrio. Porm, cada um tem sua razo, sua dor. Vai ver que a pessoa sofreu tanto... 

Isto - O que acha das crticas do cantor Lobo aos militantes de esquerda que lutaram contra a ditadura?

Cac Diegues - O Lobo faz o marketing da porrada. A melhor forma de aparecer  criando uma polmica. Quem  que est na moda? Fulano. Ento vamos falar mal de fulano. Mas isso no vai longe, porque no tem argumentos, tem s exclamaes.

Isto - Termos como direita e esquerda ainda fazem sentido hoje? 

Cac Diegues - Eu acho que isso no existe mais. Essa ideia de esquerda e direita nasceu na revoluo francesa, mas  uma referncia da Guerra Fria  e acabou h muito tempo. Mas as expresses sobrevivem. Para mim,  de direita todo aquele que no se interessa pelos outros. E  de esquerda aquele que se interessa. Quem acha que  possvel ser feliz em um mundo rodeado de gente infeliz  de direita. E  lamentvel. Porque ainda no entendeu que estamos condenados  convivncia com o outro, a ser um ser social. Mas tem tanta gente que se diz socialista ou comunista e vive s para se beneficiar. E tantos que se proclamam liberais e fazem mal ao Pas e aos outros.

Isto - Como o sr. comeou a frequentar as favelas cariocas?

Cac Diegues - O pessoal do grupo Ns do Morro, do Vidigal (zona sul do Rio), me chamou para conhecer a comunidade anos atrs, e eu gostei muito do que encontrei. Tanto que chamei algumas pessoas para trabalhar no meu filme Veja Esta Cano (1994), tanto no elenco quanto na equipe tcnica. Comecei a ser convidado por outras entidades e, um dia, o pessoal que mora em Cidade de Deus me pediu para organizar um curso de cinema l e dar a aula inaugural. Pensei, e agora? Se as escolas brasileiras so umas porcarias, o que eu vou dizer para esses meninos que tm escolas piores ainda? Fiquei com essa angstia at chegar l e ver que muitos dos alunos j tinham feito filmes com cmeras domsticas e celulares. A aula foi sobre os filmes que eles j tinham feito. Eles esto muito mais  frente e mais presentes na histria do que a gente, do asfalto, imagina. 

Isto - Como avalia os desdobramentos de seu filme 5x Favela, de 1962? 

Cac Diegues - Fizemos 5x Favela com trs metas: botar esse pessoal no mercado de trabalho, deixar que eles sejam porta-vozes deles mesmos e colaborar com a inovao do cinema brasileiro, que  o que est acontecendo. Depois, fizemos o 5x Favela, Agora por Ns Mesmos, em que os prprios moradores dos morros conduzem a narrativa, e o 5x Pacificao, sobre as modificaes ps-UPPs. Agora, estou produzindo um documentrio interessantssimo, dirigido pelo Rodrigo Felha, que  de comunidade, o Favela Gay. Fala sobre a homossexualidade nos morros.

Isto - Tem diferena?

Cac Diegues - Muita. Nas favelas, os gays tm um papel social muito especfico e importante, que mistura o afeto feminino e a autoridade de homem. Entrevistamos um lder comunitrio que  gay, todos sabem, mas isso no impede que seja respeitado na comunidade. H uma identificao na medida em que as pessoas que vivem em favelas sabem que so to discriminadas e vtimas de preconceito quanto os gays. Isso gera solidariedade.

Isto - No outro filme que o sr. produz, o bicheiro Giovanni Improtta personifica um tipo bem conhecido no Brasil, o simptico corruptor, no ?

Cac Diegues - Esse personagem foi criado pelo Aguinaldo Silva e ganhou do (Jos) Wilker uma primorosa interpretao na novela Senhora do Destino (2004). No cinema,  uma comdia hbrida com pitadas de romance, crtica social e thriller. Trabalha bem esse limite difuso entre o bem e o mal, a corrupo e a honestidade, coisas que o Brasil mistura muito. Alm de divertir e encantar, o filme ilumina determinado carter brasileiro e faz pensar.

Isto - O sr. est escrevendo sua biografia h cinco anos. Quando sair?No chamaria de biografia. No falo que namorei fulano, dei porrada em sicrano, etc. Falo do que vi acontecer no cinema brasileiro e do que eu fiz. Claro, ao reconstituir esses 50 anos de atividade cinematogrfica, falo da minha vida. S que deu 900 pginas e ningum  louco de publicar um livro desse tamanho. Estou cortando. Deve dar umas  600 pginas, e entrego  editora at o fim do ano.

Cac Diegues - No chamaria de biografia. No falo que namorei fulano, dei porrada em sicrano, etc. Falo do que vi acontecer no cinema brasileiro e do que eu fiz. Claro, ao reconstituir esses 50 anos de atividade cinematogrfica, falo da minha vida. S que deu 900 pginas e ningum  louco de publicar um livro desse tamanho. Estou cortando. Deve dar umas 600 pginas, e entrego  editora at o fim do ano.

Isto - H um captulo dedicado ao ltimo encontro com Glauber Rocha (1939-1981)?

Cac Diegues - Sim. Ele  personagem importante no cinema e no meu livro. Tenho saudade de Glauber at hoje. O encontro aconteceu um ms antes da morte dele, em Sintra, Portugal. As notcias sobre seu estado fsico eram assustadoras. Jorge Amado, Joo Ubaldo Ribeiro, Luiz Carlos Barreto e eu concordamos em participar de um compl para convenc-lo a vir se tratar no Rio, cercado de amigos e famlia. Como Glauber ria nesses ltimos dias em que o vi vivo! Ele teve septicemia e embarcou para c em estado semiconsciente. Foi assim que o vi pela ltima vez no hospital. Ele tentou sorrir e me chamou de mestre, como costumava fazer quando queria agradar algum, com uma voz lenta e muito baixinha, de cansao infinito. Tinha 42 anos e era o melhor de todos ns.

Isto - Como avalia o cinema, de modo geral, atualmente?

Cac Diegues - Em transformao muito rpida. O mito da sala de cinema com celebrao, escurido, tela grande, isso no vai acabar nunca. Mas cada vez mais aparecem outros meios de difuso que se tornam at mais importantes. A sala de cinema vai virar apenas uma vitrine para mostrar o produto. Depois, o filme vai para onde realmente as pessoas o esto consumindo: nas tevs abertas ou pagas, no DVD e na internet. O cinema  o avozinho patriarca dessa famlia. 

Isto - H certa nostalgia de passado ao constatar essas mudanas todas?

Cac Diegues - De jeito nenhum. Acho que hoje  melhor que ontem, o mundo anda para a frente. Como diz o Caetano Veloso, eu tenho saudade mesmo  do meu corpo jovem. S isso. Claro, h sustos. Por exemplo, nunca pensei que fosse viver o sculo XXI com guerras religiosas. Pensava que isso j tinha acabado, que era coisa da Idade Mdia. Mas no acabou.

